Em entrevista, saltadora paulista fala sobre expectativa para Pequim, a carreira e a vida pessoal
A duas semanas do início dos Jogos Olímpicos de Pequim, a saltadora Fabiana Murer participou do GP de Estocolmo, na Suécia, nesta semana e segue nos próximos dias para Macau, na China. Nesta estrevista, a atleta fala sobre a infância, a paixão pela ginástica artística ? praticou a modalidade para valer durante nove anos -, ?até a hora que eu estava crescendo muito rápido, ficando alta e vi que não tinha mais futuro?. Na China, a garota de Campinas fará a estréia em Olimpíadas e não esconde a ansiedade. ”Fico imaginando o estádio lotado e eu na competição. Sei que vou estar um pouco nervosa.?
Ela conta ainda sobre os tempos de estudante, é formada em Fisioterapia, e a vontade de seguir a carreira ”depois que eu me aposentar no salto com vara.” Fã do ucraniano Sergei Bubka, recordista mundial e campeão olímpico, Fabiana encara uma rotina dura de treinamento, o que a obriga adotar um estilo de vida ”mais light”, incluindo programas como cinema, restaurantes e barzinhos. Na entrevista a seguir ela também fala sobre religião, vaidade e sonhos.
Histórico
Nasci em Campinas e com 7 anos comecei a fazer ginástica artística. Minha mãe resolveu me colocar na ginástica porque eu tinha umas amigas na escola que faziam. Desde o começo foi super fácil, e eu logo passei para uma equipe intermediária. Foi muito rápida essa evolução e me dediquei um longo tempo à ginástica, até meus 16 anos. Até que uma hora, comecei a ver que estava crescendo muito rápido, ficando alta e vi que não tinha muito futuro na ginástica. Eu era uma das melhores ginastas lá de Campinas, mas sabia que não ia conseguir evoluir muito mais. Comecei também a ter dificuldades, quando ia fazer exercícios a barra assimétrica, quase batia o pé no chão. Na trave eu desequilibrava bastante. Eu queria fazer outro esporte, mas não sabia exatamente o que. Minhas irmãs faziam natação, fui tentar fazer também, mas achei muito chato, não tinha muita paciência.
Depois de um tempo meu pai viu um anúncio no jornal que estavam montando uma escolinha de atletismo em Campinas. Ele falou: ?ah vai lá fazer né? Você não quer parar a ginástica??. E como eu queria continuar essa carreira de esportista, fui fazer o teste. Nunca pensei em fazer salto com vara, pensava em fazer corrida ou salto em distância. Fiz o teste que era corrida e salto em distância, fui super bem e o Elson, meu técnico até hoje, era um dos treinadores que estava selecionando os atletas. Ele viu meu biotipo, viu que eu fui bem no teste e foi conversar comigo. Quando eu disse que fazia ginástica, ele já me indicou o salto com vara, não tive muita escolha. Mesmo assim, no primeiro ano eu fiquei meio em dúvida ainda se largava mesmo à ginástica e me dedicava realmente ao atletismo. Depois de um ano de treino, consegui fazer o índice pro mundial juvenil. A partir daí, percebi que levava jeito pro salto com vara. Aí eu larguei a ginástica de vez e fiquei só no salto com vara.
Cursos
Fiz faculdade, sou formada em fisioterapia. Consegui conciliar a faculdade e os estudos e me formei. Acho que se fosse hoje em dia seria muito difícil fazer faculdade. Eu viajo e acabo ficando 2, 3 meses fora. Acho que é a carreira que eu quero seguir depois que eu me aposentar no salto com vara, fazer uma nova carreira como fisioterapeuta.
Olimpíada
Eu sempre tive um grande sonho como atleta que é estar numa olimpíada. E agora está quase realizado. Fui classificada para Pequim e estou muito ansiosa. Fico imaginando o estádio lotado e eu na competição. Sei que vou estar um pouco nervosa, principalmente na prova de eliminatória, porque você tem que passar por aquilo para poder chegar na final. Quero fazer um salto com uma boa técnica, e acho que a medalha é conseqüência. Sei que é bem difícil essa medalha, mas não é impossível. Eu sonho com isso.
Equilíbrio mental
Acho que o lado psicológico é muito importante, principalmente no salto com vara que é uma prova que você fica muito tempo dentro da pista, vendo as outras saltarem. E não é como um salto em distância ou um lançamento que você lança ou salta o mais longe que você puder, no salto com vara você tem uma certa altura para saltar e não importa se salta 10 ou 20 cm a mais, isso não vai contar pontos. O sarrafo tem que estar na altura certa, então acho que o psicológico conta bastante em relação a isso. Acho que o atleta tem que saber controlar e trabalhar isso. Meu técnico acaba me ajudando bastante porque ele tenta me preparar, me dizer o que vou sentir o que esperar na competição. E isso tem dado certo, ele me ajuda bastante.
Mudança do estilo
Em 2001 eu e meu técnico começamos a fazer um intercâmbio com o Vitaly Petrov que foi técnico do Sergei Bubika que hoje treina a Yelena Isinbayeva, os 2 recordistas mundiais. E logo no início, ele mudou totalmente minha técnica, como eu segurava a vara, como eu abaixava, como eu corria. Então, foi um período muito difícil porque na época eu era recordista brasileira e quando a comecei a fazer essa técnica dele, meus resultados começaram a decair bastante. Eu via as outras brasileiras saltando mais do que eu, batendo o meu recorde, foi bem difícil. Levei dois anos para me adaptar a essa nova técnica e consegui bater o recorde brasileiro outra vez. A partir daí, comecei a crescer, melhorar meus resultados e agora consegui o índice para olimpíada.
Rotina
Sou muito caseira, bem tranqüila, gosto de assistir um filme, ir ao cinema, fazer programinhas mais light. À noite, gosto de ir a restaurantes ou barzinhos. Como eu treino muito, acabo não agüentando ficar acordada até muito tarde, então, acabo dormindo cedo porque preciso descansar e me recuperar para o próximo treino. Mas gosto de ter um pouco de vida social, sair um pouco do esporte, ver outras coisas, relaxar. Em casa, gosto de ligar o som, ler um livro, ir para a piscina tomar sol.
Outros esportes
Eu ainda pratico a ginástica artística, só que é para ajudar no salto com vara. Quando estou de férias, gosto de escalar indoor, na academia. Eu preciso manter a forma. Acompanho muito a ginástica artística e o vôlei também.
Música
Gosto bastante de MPB, Rock e POP. Ouço muito Skank, Paralamas, Marisa Monte, Djavan. Sou amante da música brasileira.
Internet
Acho importante acompanhar as notícias, principalmente do esporte. Acesso bastante os portais da Federação Internacional de Atletismo e da Confederação Brasileira de Atletismo para ver como andam as outras competidoras, o quanto que elas estão saltando. Para me comunicar com fãs e amigos, uso Orkut e o MSN. Muitas pessoas, principalmente depois do Panamericano, começaram a acessar meu perfil, com algumas dúvidas sobre o salto com vara, minha carreira, que competições eu vou fazer etc. Mais pra frente, quero criar meu próprio site.
Viagem
Gosto muito de viajar. Depois que terminar a carreira como esportista, quero viajar para os lugares onde fui competir, mas como turista. Muitas vezes a gente chega à cidade, compete e vai embora, então não tem muito tempo de conhecer realmente. Sempre quando tenho um tempinho eu gosto de conhecer a cidade, conhecer os costumes do país. Gosto muito de praia, ano passado fui para Natal com meus pais nas minhas férias do atletismo. Eu tinha muita curiosidade de ir para o Japão e estive lá no ano passado, mas queria ir pra Tókio porque eu fui pra Osaka. Gostaria de conhecer a Austrália que não conheço.
A vida sem o salto com vara
Eu já comecei a pensar no que vou sentir quando parar. Acho que realmente vai ser duro terminar, mas acho que isso é normal. Chega uma hora que acaba não dura para sempre. Por isso, já fiz faculdade, penso em uma outra carreira. Mas por enquanto, quero curtir bastante essa boa fase que estou.
Coleções
Gosto muito de relógio, então eu tenho vários relógios. Mas não acho que seja uma coleção.
Ídolo
Um ídolo pra mim é o ucraniano Sergei Bubka, recordista mundial do salto com vara. Acho que ele foi um grande atleta com uma técnica praticamente perfeita que eu tento reproduzir. Acho que ele conseguiu atingir um nível excelente como atleta então é um dos grandes ídolos que eu tenho.
Sorte
Acho que ter sorte na competição é sempre bom. Mas você não pode depender só da sorte. Acho que se você treinou bem, as coisas fluem e se precisar da sorte ela te ajuda. Eu não conto muito com isso não, prefiro contar com o meu trabalho, com o meu treino.
Crenças
Eu acredito em Deus, acredito em um ser maior. Mas não sou católica praticante.
Moda
Acompanho a moda quando posso. Gosto de estar na moda, mas acabo usando muito mais roupa esportiva. Acho que as roupas esportivas também têm sua moda. Acho que a Nike leva roupas do esporte para o dia-a-dia.
Vaidade
Sou vaidosa, mas não muito. Costumo ir ao cabeleireiro, faço hidratação, escova. Maquiagem eu uso super pouco, só a noite mesmo, pra sair, em algum evento, alguma festa. Protetor solar é uma coisa que uso sempre, principalmente no rosto mesmo se está chovendo. Sou muito clarinha, então tenho que me proteger. No corpo eu acabo esquecendo e fico toda vermelha, depois do treino principalmente, porque eu treino no sol.
Vida Noturna
Saio mais nos finais de semana porque normalmente treino 2 períodos, então sair a noite e acordar cedo não dá. E se não durmo bem a noite, acaba sendo um pouco difícil e os treinos também acabam não rendendo tanto. Então eu gosto de descansar, não sou muito baladeira assim não.
(Fonte: ZDL/Glenda Carqueijo)











